Fechava as portas de meu Dojô numa sexta feira a noite, após um dia inteiro de aulas. Já do lado de fora da escola, um de meus alunos, interessado estudante de educação física, me apresentou uma situação intrigante.
Ele citou um grupo de exercícios de comunicação corporal ensinados em meu estilo. Eles existem pois a execução das técnicas durante o treinamento pode tornar-se muito rápida para que haja comunicação verbal eficiente a tempo.
É uma comunicação simples, que expressa comandos como “Pare”, apontam uma técnica bem executada ou avisam sensações de dor imediatamente. Variações destes mesmos exercícios existem em praticamente todos estilos tradicionais samurais.
Educadamente, meu aluno apontou que alguns de seus estudos acadêmicos sobre a musculatura e sistema motor humano o levaram a acreditar que alguns dos exercícios de comunicação corporal de meu estilo não são os melhores que existem para serem aplicados.
Para responder esta questão, notei que a solução deste problema reside num campo do entendimento humano diferente da educação física.
Os estilos marciais tradicionais, chamados Koryu, ou seja, que antecedem a criação dos estilos modernos, os Gendai, têm algo em comum. Eles carregam um legado cultural mais profundo do que as relações mecânicas de causa e efeito das suas técnicas de combate.
São uma lembrança viva da cultura que originou estes estilos, preservada em seus costumes, cerimônias e de que forma seus integrantes se relacionam com o próprio corpo.
Uma das grandes preocupações por parte dos mestres de um Koryu é preservar o conhecimento dos antepassados de seus estilos. Se substituíssemos seus exercícios ancestrais, por mais simples que eles sejam, por métodos modernos, o estilo desenvolvido pelos mestres ancestrais seria o mesmo?
A pergunta toma um peso ainda maior se considerarmos que esses novos exercícios pertencem a uma outra cultura. O ocidente tem uma forma de relacionar-se com o corpo diferente do oriente. Imagine então as diferenças para a cultura oriental de sete séculos atrás.
O paradigma científico-cultural do ocidente busca uma melhoria positiva de processos mecânicos. Os estudos acadêmicos no campo da educação física, por exemplo, empenham-se em desenvolver categorias de exercícios cada vez mais eficientes, que proporcionem resultados mais rápidos. O que ficou para trás está esquecido, torna-se obsoleto.
O desenvolvimento das artes marciais, em seu início, seguiu parâmetros empíricos semelhantes, no método da tentativa e erro. Técnicas eram desenvolvidas até tornarem-se satisfatórias para os mestres, outras eram incorporadas de outros estilos.
Muitas técnicas surgiram no campo de batalha, onde os guerreiros realizavam algum movimento involuntário e desconhecido, porém funcional. Após o conflito, eles isolavam-se em meditação, para recordarem-se do que fizeram e então catalogavam uma nova técnica.
Com isso, é importante notar como as artes marciais Koryu, que mantêm sua tradição, foram criadas para a sobrevivência, para a batalha verdadeira. Diferente do apelo estético que amalgamou-se ao discurso da saúde, divulgado pelos esportes ocidentais.
As artes marciais geram benefícios à saúde física, como o conhecimento ocidental mesmo aponta. Mas para as modalidades esportivas ocidentais esse é o fim a se alcançar, sem se importar com o que ficar para trás.
Já para os estilos tradicionais que sobreviveram até hoje, que são uma minoria alarmante, o maior domínio do próprio corpo é só um de dois objetivos. Os Koryu também têm de se preocupar com suas raízes – das artes marciais à filosofia, história e contexto em que foi criado o estilo.
As artes marciais Koryu são um testemunho da cultura dos antepassados, que permea muitos níveis da experiência humana, incluindo como eles ensinavam a dominar e desenvolver seus corpos, e por que.
Os estilos tradicionais guardam estas experiências, vividas geração após geração, tornando-se entidades culturais únicas, que possuem identidades próprias. Seus praticantes hoje entesouram os ensinamentos dos antepassados, reverentes à sua memória e praticando seus ensinamentos, por confiança nas vivências ancestrais de pessoas que dependiam daquilo para sobreviver. E sobreviveram.
Enfim, os comentários feitos pelo meu aluno partiram de conhecimentos gerais sobre anatomia. Existem certamente muitas pesquisas sobre as modalidades olímpicas, como o Caratê e o Judô. Mas eu desconheço algum estudo profundo sendo desenvolvido especificamente com as modalidades tradicionais, muito diferentes das olímpicas.
No Brasil, o Centro de Pesquisas em Cultura Japonesa está começando e promete muito. Entretanto, é preciso perceber que para se estudar um Koryu academicamente, não é inteligente restringir-nos à abordagem biológica e pesquisar apenas seus aspectos mecânicos. Vamos precisar de um olhar mais antropológico, para entender que o que é bom e o que é melhor são conceitos muito relativos.
Ele citou um grupo de exercícios de comunicação corporal ensinados em meu estilo. Eles existem pois a execução das técnicas durante o treinamento pode tornar-se muito rápida para que haja comunicação verbal eficiente a tempo.
É uma comunicação simples, que expressa comandos como “Pare”, apontam uma técnica bem executada ou avisam sensações de dor imediatamente. Variações destes mesmos exercícios existem em praticamente todos estilos tradicionais samurais.
Educadamente, meu aluno apontou que alguns de seus estudos acadêmicos sobre a musculatura e sistema motor humano o levaram a acreditar que alguns dos exercícios de comunicação corporal de meu estilo não são os melhores que existem para serem aplicados.
Para responder esta questão, notei que a solução deste problema reside num campo do entendimento humano diferente da educação física.
Os estilos marciais tradicionais, chamados Koryu, ou seja, que antecedem a criação dos estilos modernos, os Gendai, têm algo em comum. Eles carregam um legado cultural mais profundo do que as relações mecânicas de causa e efeito das suas técnicas de combate.
São uma lembrança viva da cultura que originou estes estilos, preservada em seus costumes, cerimônias e de que forma seus integrantes se relacionam com o próprio corpo.
Uma das grandes preocupações por parte dos mestres de um Koryu é preservar o conhecimento dos antepassados de seus estilos. Se substituíssemos seus exercícios ancestrais, por mais simples que eles sejam, por métodos modernos, o estilo desenvolvido pelos mestres ancestrais seria o mesmo?
A pergunta toma um peso ainda maior se considerarmos que esses novos exercícios pertencem a uma outra cultura. O ocidente tem uma forma de relacionar-se com o corpo diferente do oriente. Imagine então as diferenças para a cultura oriental de sete séculos atrás.
O paradigma científico-cultural do ocidente busca uma melhoria positiva de processos mecânicos. Os estudos acadêmicos no campo da educação física, por exemplo, empenham-se em desenvolver categorias de exercícios cada vez mais eficientes, que proporcionem resultados mais rápidos. O que ficou para trás está esquecido, torna-se obsoleto.
O desenvolvimento das artes marciais, em seu início, seguiu parâmetros empíricos semelhantes, no método da tentativa e erro. Técnicas eram desenvolvidas até tornarem-se satisfatórias para os mestres, outras eram incorporadas de outros estilos.
Muitas técnicas surgiram no campo de batalha, onde os guerreiros realizavam algum movimento involuntário e desconhecido, porém funcional. Após o conflito, eles isolavam-se em meditação, para recordarem-se do que fizeram e então catalogavam uma nova técnica.
Com isso, é importante notar como as artes marciais Koryu, que mantêm sua tradição, foram criadas para a sobrevivência, para a batalha verdadeira. Diferente do apelo estético que amalgamou-se ao discurso da saúde, divulgado pelos esportes ocidentais.
As artes marciais geram benefícios à saúde física, como o conhecimento ocidental mesmo aponta. Mas para as modalidades esportivas ocidentais esse é o fim a se alcançar, sem se importar com o que ficar para trás.
Já para os estilos tradicionais que sobreviveram até hoje, que são uma minoria alarmante, o maior domínio do próprio corpo é só um de dois objetivos. Os Koryu também têm de se preocupar com suas raízes – das artes marciais à filosofia, história e contexto em que foi criado o estilo.
As artes marciais Koryu são um testemunho da cultura dos antepassados, que permea muitos níveis da experiência humana, incluindo como eles ensinavam a dominar e desenvolver seus corpos, e por que.
Os estilos tradicionais guardam estas experiências, vividas geração após geração, tornando-se entidades culturais únicas, que possuem identidades próprias. Seus praticantes hoje entesouram os ensinamentos dos antepassados, reverentes à sua memória e praticando seus ensinamentos, por confiança nas vivências ancestrais de pessoas que dependiam daquilo para sobreviver. E sobreviveram.
Enfim, os comentários feitos pelo meu aluno partiram de conhecimentos gerais sobre anatomia. Existem certamente muitas pesquisas sobre as modalidades olímpicas, como o Caratê e o Judô. Mas eu desconheço algum estudo profundo sendo desenvolvido especificamente com as modalidades tradicionais, muito diferentes das olímpicas.
No Brasil, o Centro de Pesquisas em Cultura Japonesa está começando e promete muito. Entretanto, é preciso perceber que para se estudar um Koryu academicamente, não é inteligente restringir-nos à abordagem biológica e pesquisar apenas seus aspectos mecânicos. Vamos precisar de um olhar mais antropológico, para entender que o que é bom e o que é melhor são conceitos muito relativos.